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ARTIGO: Paixão e glória da Misericórdia

Os gritos de Hosana, iniciados pelas crianças, cujas bocas não podem se calar, espalham-se pelas ruas e vielas da cidade. Chegou o Rei esperado, o Filho de Davi, as esperanças se cumpriram! No entanto, o burburinho das massas não consegue esconder as conspirações correntes, tramadas às escondidas pelas autoridades políticas e religiosas do tempo. Sabemos que os acontecimentos se precipitaram, pois, poucos dias depois, bastaram poucas tratativas, traição, moedas, falsos testemunhos, tudo conduziu à Cruz, onde foi elevado, fora dos muros da cidade, Jesus de Nazaré! Jesus entrou em Jerusalém para se entregar, como ato de liberdade de quem não tem a sua vida roubada: “É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo. Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai” (Jo 10, 17-18).

Deus não tem medo de sujar-se

Deus não aguarda a vinda de uma humanidade machucada e ferida, suplicante da expectativa da benevolência divina, mas se antecipa, indo ao encontro, gratuitamente, de todas as necessidades humanas. É a misericórdia em ato, na liberdade do dom de amor. Deus não tem medo de “sujar-se”, saindo de si mesmo. Jesus é aquele que assume a condição de escravo, obediente até a morte. Sim, ele está pronto para resgatar da morte a humanidade, justamente com a própria morte. Seria inadequado acusar o Pai do Céu pela morte do Filho amado! Não se trata de roubo da vida do Filho, mas uma viagem de amor, para que nenhuma situação humana fique alheia ao amor de Deus. Dali para frente, todo ato de amor e serviço aos últimos, aos mais frágeis e pecadores, pode ser acolhido como parte do único movimento de amor, nascido do seio de amor de Deus que é Pai e Filho e Espírito Santo. A misericórdia está no mais alto das atitudes divinas e humanas!
Voltemos a Jerusalém! Quem sabe o que faz acolhe as aclamações e hosanas, mas não se ilude com elas. Para entrar na cidade, vai sobre a montaria dos pobres, um jumentinho, e não com um cavalo cheio de enfeites, próprio das autoridades carregadas de poder. São as roupas das pessoas que servem de homenagem e os ramos de palmeira sinais de vitória escondida na simplicidade daquele que é acolhido. Lá dentro do coração do Senhor, certamente se abria o horizonte das muitas dores que estavam para chegar. Levar em conta a possibilidade e até a certeza do mistério da dor é sinal de inteligência e realismo. Se de todos se pode esperar tal percepção, mais ainda do Senhor Jesus, nosso Salvador.

Não impeça a ninguém o acesso a fonte de misericórdia

Consequências! Não ter receio de contar com a vitória de Deus contra a maldade e o pecado. Ele é o Senhor da História! Haveremos de conviver, tendo diante dos olhos trigo e joio, quem sabe até angustiados pelos peixes bons e maus existentes nas redes da vida, com o mistério da iniquidade. Sabemos que ele passa também dentro de nós e não apenas no limite em que começam a entrar os outros e seus eventuais dramas ou pecados. As ruas de nossos corações não se recusem a abrir-se acolhedoras. Não tenhamos receio de mostrar nossas misérias e sujeiras físicas ou morais, pois estamos certos de que aquele que é misericordioso se apaixonou pela humanidade que somos nós. E não impeçamos a ninguém o acesso à fonte da misericórdia, que jorra nas praças de nossa vida de Igreja. Antes, sejamos missionários portadores do anúncio da misericórdia aos mais sofredores e pecadores.
Com este espírito viveremos a Semana Santa que se abre no Domingo de Ramos. Sair de nossas casas, acompanhar a procissão de Ramos, participar da Santa Missa, preparar-se para o Tríduo Pascal! É o programa da próxima Semana, a “Semana Maior”.
Dom Alberto Taveira / Canção Nova
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